Antoni Tápies

É importantíssimo trabalhar com referências. Gostaria de apresentar hoje, à vocês, o trabalho do Antoni Tápies.

Há uma diretriz do pixo, que é a base. Que as letras tem de tocar de cima a baixo linhas imaginárias da base e do topo. Estamos com uma ideia de que o luxo é transmitido pela tela de linho. Isso está certo. Mas luxo tem de ser a expressão dos artistas também.

Vou mostrar para vocês um trabalho do Tápies que ele brinca com a ausência de base.


Há outros materiais que são chiques, além da tela de linho. Mas há também materiais baratos, sobretudo porque Tápies é espanhol e na época em que ele foi vivo estava em alta o movimento Póvera. Ou Povera. Que justamente procurava mostrar a arte feita com coisas baratas. No Brás, acho que na rua Vasco da Gama tem uns papéis cartões rígidos, coisa de 4mm, por valores acessíveis. De 60 x 90 cm ou algo assim. Vejo que o trabalho do Tápies acima poderia ser trabalhado com esse tipo de material barato. Vejam bem que onde aparece 1 2 3 foi aplicada uma base mais branca, mais alva, que sobre o restante do branco.
Eu soube de uma discussão sobre o pixo e a cor. Chegou até mim que é o preto e um tipo de azul. Tápies tem uma paleta super reduzida e sóbria de cores. Não sei se essa seria uma boa medida para vocês. Trabalhar com terras, dois vermelhos e preto. Com a opção de cinzas, que são as cores da cidade.
A cruz ou sinal de mais aparece em vários trabalhos de Tápies. Não sei o que significa. às vezes tenho dificuldade com os códigos em artes conceituais. Ele ainda coloca símbolos, nessa pintura acima (um L e um ~), e uma assinatura extravagante. Tudo isso com ponta seca sobre tinta. De pincel e spray, nessa pintura, tem só a cruz deitada e o 8. Notem, nessa pintura ainda, o trabalho de figura e fundo. Na cidade os prédios são aquilo que vocês pintam. Na pintura, vocês poderiam criar o que vão pintar. No caso dessa pintura cinza o fundo cinza com bordas irregulares é o campo de fundo sobre o qual haverá todo o discurso plástico posterior. Cada centímetro quadrado dessa pintura é meticulosamente pensada e sentida pelo artista. Que quando fez essa pintura devia ser mais velho que vocês são hoje. Então, há a sensibilidade da idade. Mas acredito que lidar com procedimentos de aplicação estética de materiais de maneira falha é algo que está para além da política de testes anteriores aos trabalhos finais. Com materiais baratos, vocês podiam se lançar a fazer experimentos com tinta acrílica, nanquim, pasta de modelagem. Além de vernizes... Fazer isso, para mim, também seria um grande aprendizado. Como artista ou como assistente, dando suporte técnico e ideias plásticas para a execução de experimentos. Quem sabe podemos fazer algumas experiências juntos para abrir o caminho para essa vertente. Percebam que Tápies, ainda nessa pintura, contemplou perfeitamente o gráfico e o pictórico. Há um tratamento de superfícies bem pensado. O Branco sobre o cinza de fundo tem pequenas variações de densidade, de quantidade de tinta. Isso faz com que ele fique menos intenso em baixo da assinatura do pintor ou mais intenso perto do 8, à direita do 8, tudo com a mesma tinta.
A tinta serigráfica branca tem bastante pigmento... é uma boa opção para o elenco de materiais baratos.
Não quero discordar da política de testes antes dos trabalhos finais. Tenho usado ela e meu trabalho tem crescido, lentamente, sobre essa perspectiva. Apenas quero dizer que há coisas experimentais e processuais que só acontecem uma vez porque demandam grande sensibilidade técnica. Inclusive, o que gosto muito de fazer, está presente em boa parte de minha pintura, é repetir temas justamente porque inevitavelmente mostra o movimento interior involuntário do artista de mudança. A coisa demanda tanta sensibilidade que a repetição do procedimento vira criação. Mudam cores, ângulos, proporções, enquadramentos de composição e o tema é o mesmo: uma lanchonete, por exemplo.


Notem nessa outra pintura que Tápies, com gestos francos e cortando apenas a camada de tinta verde da tela, estabeleceu um fundo verde cheio de mesclas controladas e a caracterização de convivência, ou briga, entre dois personagens com traços infantis. À direita a cabeça é maior e solar - não sei como ele fez a cabeça alva, como ele pintou de branco a cabeça da direita sem cobrir o fundo. E a cabeça da esquerda, menor, tem uma espécie de duas orelhas pretas, ou chifres, denotando uma áurea tenebrosa nesse personagem. Aqui não há discurso de figura e fundo. Há só o fundo bem estabelecido. Há, ainda, um rasgo horizontal na campo inferior esquerdo. Um gesto de processo, um gesto irracional que o artista manteve para manter o registro do processo de criação. Provavelmente há carvão sobre tinta. É um pintor difícil, variações mínimas definem a sensibilidade e qualidade. Talvez seja algo avançado demais para tentarmos atingir na pintura de vocês. Mas a intenção dessa carta é ampliar os horizontes. Até para vocês não se assustarem se aparecer algo aparentemente tosco no trabalho de vocês.


O Tápies trabalhou muito com cêras e breus. Notem que a aglutinação da cera em gotas grandes na linha transversal laranja, com uma frase prévia escrita antes, mostram a sensibilidade do artista. A boca no canto inferior esquerdo. Os signos do artista aparecem de novo - o sinal de mais - e há um trabalho de estabelecer o fundo. Parece uma parede suja de alguma fábrica desativada. Sem o branco transparente acima da cera, esse trabalho não seria bom. Há, portanto, uma preocupação de claro e escuro que ampliam a experiência visual do trabalho sem ser necessariamente o tradicional chiaro & scuro das Belas Artes. Se vocês não entenderem algo que eu diga por favor me perguntem.


Aqui eles usou uma pasta que simplesmente enrugou e não satisfeito com a estética da falha do material, repuxou numa direção e trabalhou a precariedade dos meios. Imaginem um quadro do Manabu Mabe que a tinta enrugue, ele pegue uma espátula ou com as mãos mesmo repuxe a tinta para os lados? Isso faz com que vocês possam trabalhar com tintas esmaltes em camadas densas, esperem secar a película superficial e depois repuxem a tinta (super brilhante) para onde queiram. Mas o cheiro é forte.
Mostrei esse trabalho porque não encontrei fotos de pinturas do Tápies que vi no CCBB 20 anos atrás. Ele pesquisa materiais químicos que expandem e parecem espumas. Esse material se alastra por toda superfície da tela de maneira uniforme e ele ainda mistura esses materiais com areias. Daí, como se fosse o Padre Anchieta escrevendo na areia das praias, ele faz um círculo irregular tangenciando as bordas da tela com um sinal de mais no centro da tela! É revoltante de tão simples. É Mira Schendel e é mais. Telas bem grandes. Mas sugiro tomarmos cuidado com telas grandes, a menos que tenham verba e espaços institucionais. Portanto, é bom ter projetos, sketches e experiências para mostrar que estão preparados para projetos grandes. Mas ter cuidado de quando executá-los e aonde.

Apresento ainda um trabalho que simula no fundo uma embalagens de eletrodomésticos. Mais uma prova de que não são necessárias telas de linhos para avançarmos no luxuoso. A linha superior preta transbordando entre a figura e o fundo. E o fundo ocre sobre um campo branco mostram consciência do que o artista estava buscando. Ele ainda faz um círculo no sinal de mais, mostrando para o público, descaradamente, no que prestar atenção. Essas anotações sobre o que é importante em cada obra acontece às vezes no trabalho dele. Há a escrita invertida em baixo da palma da mão a sudoeste do sinal de mais.  E as letras brancas criando o claro e escuro da obra. Provavelmente ele aplicou a tinta ocre com um rodo de borracha, bem forte a aplicação, para não formar volume de tinta. Mas notem que a linha vertical ocre à esquerda é mais intensa que o restante do campo ocre.
Esse artista faz coisas sem sentido, para mim, ao lado de coisas com sentido, como o texto invertido. Da Vinci escrevia diários com letras invertidas. E assinalar com círculos é uma técnica dos fotógrafos, em laboratórios fotográficos, de assinalar nos positivos dos filmes aquelas fotos que serão aproveitadas.






Eu entendi que isso é uma foto. É uma foto de uma pintura dele. A impressão que dá é que ele pixou e pintou a foto. Por que não fazer fotos dos prédios de São Paulo, ampliar em giclés (impressão fine art sobre telas) e pixar e pintar as telas?

É isso, amigos. Termino minha reportagem sobre Tápies aqui. Só vou inserir mais imagens para vocês mesmos avaliarem e tirarem as próprias conclusões e desejar que avancem mais e mais no caminho artístico e profissional de vocês. O link é aberto mas não vou divulgar para ninguém.
Abraços












Esse é sobre papel de embalagens de eletrodomésticos mesmo. Podemos pedir para alguma empresa de embalagens umas 20 folhas sem dobras. Tenho um parente distante que trabalha com isso, eu acho.

















Esses três rostos lembram o trabalho de fotos do Geraldo de Barros.




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